Um vento frio batia incessante. Sentado na mesa do pequeno restaurante, Sam apreciava seu café. O Soho, como de costume nas noites, era populado por todo tipo de gente "alternativa". O bairro fora conhecido por vezes como berço dos punks, é verdade, mas a fama atual de fato era o bairro homossexual de Londres. Não que Sam se importasse, desde que estivesse com seu café na mão. A mais ou menos sete - seria isso mesmo? Sam nunca se deu bem com o sistema métrico - metros de distância, sentava-se uma adolescente. Seus 13 anos, se comunicava pela internet com um cara mais velho que em teoria chegou na cidade essa semana. Não é como se o fã de café deduzisse isso devido à experiência como detetive: o cliente lhe deu a ficha da filha, oras.
Quando estava prestes a pedir a quinta xícara, irritado com a demora, sentiu o vibracall do celular. O conteúdo da mensagem de texto? "Suspeito na s/ direção - Gabe". Sam pediu a conta, pagou e foi embora, não sem antes acender um cigarro. Já a menina conversava descontraídamente com o seu recém-chegado acompanhante. Alguns drinks e fora convencida a entrar no carro... que não viria a rodar muito. "Que merda de hora pra furar um pneu!". A jovem permaneceu no carro enquanto o rapaz iria ver o estrago. Abaixou e notou o simples mecanismo feito pra empurrar um prego aos pouquinhos em direção ao pneu. Mal teve tempo de tentar entender o ocorrido quando sentiu um cutucão nas costas. Virou-se.
Sam era uma figura razoavelmente caricata. Acompanhando seus 1,80 metros, um sobretudo marrom e jeans pesados, sapatos baratos. Seus cabelos, longos, eram presos num rabo de cavalo mal feito para que sua face - dura angular, velha, barba por fazer e com sua boa quantidade de cicatrizes - ficasse à mostra. Sam não era feio, mas definitivamente não era bonito. Sua cara era a de alguém mau-humorado, intimidador e distante. E, certamente por tanto, Sam foi escolhido para abordar o rapaz.
- Algum problema? - Os olhos cerrados e o cigarro ainda na boca enquanto falava.
- Nada, só um pneu, tá tranqüilo. - havia um quê de medo e desconfiança.
- Deixa que eu te ajudo. Você tem um macaco? Vou olhar na mala.
- Não precis...
- Que menina bonitinha! É sua filha? - Disse enquanto abria o porta-malas.
- ...éé. É sim.
Sam sorriu à moda "escrota".
- Engraçado, porque esses papéis são do meu cliente...ele diz ser o pai dela. Vocês por acaso não se conheceram pela internet, xará?
- ...! Calma, cara...calma aí, a gente pode negociar...
- Sem acordos, xa...
Dizem que uma raposa acuada é mais perigosa que um lobo. Embora Sam nunca tivesse encontrado nem uma raposa, nem um lobo, ele com certeza sabia que idiotas desesperados eram deveras ameaçadores. E se não sabia, aprenderia com o murro que levou na cara, derrubando-o no chão. Seguiram-se alguns chutes, até que Sam conseguiu derrubar o cara no chão. Levantou e o instigou pra briga.
- Vem, rapaz, vem! - gesticulava. O sujeito levantou e levou dois socos, mas Sam fumava há muito tempo. Seu fôlego de fato já tinha sido reduzido a nada. Bufava enquanto era jogado de cara na mala do carro. Sua mão tateava o forro enquanto sua cara era jogada mais duas vezes - uma delas quebrando seu nariz - até que finalmente alcançou uma chave de fenda, acertando a barriga do agressor, que se recuperou rapidamente. Observando que Sam se escorava no carro tentando recuperar o fôlego, saiu correndo.
- Tsc! Droga... Gabe..Gabe...Gabe! - um toque na tecla de chamada do celular - ...Alô, Gabe! Ele saiu correndo...é, ele saiu da Broadwick subindo pela Poland!... Sei lá pra onde ele vai, porra, você é o inteligente por aqui!
Do outro lado da linha, o segundo detetive desligou o celular ao mesmo tempo em que analizava rapidamente seu mapa.
- Hm... supondo que...bom, ele não deve querer fugir pelas avenidas principais...se bem que...hmmmmm!
Enfiando o mapa nas calças, Gabe corria enquanto escutava o telefone chamar.
- ...Vai, Rorks, atende...Rorks...Rorks, atende...
Enquanto isso, em cima de um prédio na Broadwick, um celular tocava incessantemente "A Cavalgada das Valquírias". O mugido característico de um celular vibrando sobre uma superfície faz invejoso acompanhamento. Uma câmera num tripé mostrava no display LCD um Sam impaciente batendo lentamente a cabeça contra a parede. Do outro lado, Rorks, o terceiro detetive, fazia observações num telescópio voltado para o céu. "Rrrmm...", parecia grunhir, enquanto seu lápis fazia um incessante rabisco sobre um esquema tosco rodeado de anotações. Quando o celular finalmente caiu de sua mesa improvisada - uma pasta apoiada em dois tijolos -
Rorks voltou sua atenção e atendeu.
- ...Mm?
- Rorks! Que demora, cara!...Que seja, pega a câmera, o carro, se quiser, o Sam, e vem pra esquina da Great Marlborough com a Poland. VOA!
Gabe, pontual como um intestino, já estava lá quando fechou o celular. Rorks, depois de arrumar suas bugingangas rápido como só ele poderia, parou o carro ao lado de Sam.
- Venha, Sam.
- Rorks, alguém tem que cuidar da garota. - apontou pro carro - Acho que ele chapou ela.
- Rrmm...
- Se quiser me dá a câme... - Bzz. Bzz. Novamente, o celular de Sam. - ...alô?...Como assim você errou nos cálculos, Gabe?!... Tá, tá.... - fechou o celular - Rorks, seguinte. Parece que o cara cortou caminho entre os prédios ao invés de seguir pela rua... - disse, enquanto pensava "Que vontade de matar o Gabe!" - ... e o carinha-de-anjo só conseguiu ver ele correndo de longe, vai perder o cara e...
Rorks deixou Sam falando sozinho. Deu ré no carro e acelerou.
- EI, EINSTEIN! O CARA FOI NA OUTRA DIREÇÃO! - esbravejou Sam com seus fracos pulmões.
Não seria muito difícil encaixar o perfil dos três detetives nos protagonistas do clássico do Western "O Bom, O Mau e o Feio". Sam, como já vimos, poderia posar de Mau sem muitos problemas. Rorks, por sua vez, seria definitivamente Feio. Seus dentes incrivelmente tortos - até mesmo para o padrão do esteriótipo inglês - competiam com seu olho vesgo e nariz torto pela maior atenção. Sempre de chapéu, escondendo seus cachos ruivos e sujos. Sua voz, irritantemente rouca. Some isso com uma certa dificuldade em falar coisa com coisa e um padrão em ser monossilábico e você começa a ter idéia de quão esquisito Rorks era. Mas mesmo assim - ou será por isso? - seus dois companheiros nutriam uma respeito imensurável pelo seu trabalho. Imensurável, não: do tamanho do receio que tinham frente à aparente aleatoriedade de Rorks.
- ...Gabe, aqui é o Sam. Perdemos o Rorks. ...é, deu aquelas loucas dele, nem adianta ligar pro infeliz. Vamo torcer pra que aquele puto saiba o que está fazendo. ...É, eu tô no canto da abordagem incial, aqui cuidando da menina. Vem pra cá.
Descendo ao sul e estacionando irregularmente, Rorks largou o carro e adentrou a estação de metrô. "Picadilly Circus...", conferiu antes de entrar mesmo. Sem pressa alguma, passou seu Oyster e esperou pacientemente o próximo trem enquanto rabiscava algo em outro esquema de seu caderno de anotações. Fez mais um de seus sons guturais enquanto guardava o caderno e o lápis no bolso e adentrou o transporte que chegava. Estação por estação.
Enquanto isso, Sam esperava encostado no capô quando ouviu barulhos vindo do carro.
- Onde eu...
- Oi, guria. - Sam tentou seu melhor sorriso, mas o nariz quebrado dóia e ele não conseguia esconder. Seu bafo também não era dos mais agradáveis.
- Ah! Quem é você?! Socorro! Tara...
- Calma, não se preocupa. - Uma voz reconfortante e suave. A menina olhou o dono. - Tá tudo bem. Seu pai contratou a gente. Depois eu explico tudo.
Se Sam tivesse dito tais palavras...bem, não teria adiantado nada. Talvez a adolescente ficasse com mais medo ainda. Mas Gabe era, muito provavelmente, o oposto exato de Sam: sua face lembrava a de adolescentes de traços suaves que compõem bandas pops. Não fosse a diferença de peso que a idade trazia a sua cara, poderia-se até dizer que existia algo de feminino no rosto fino. Inspirava confiança. O tipo de cara que consegueria vender gelo pra esquimó - desde que o esquimó em questão fosse mulher.
"A próxima estação é: Holborn. Essa estação faz ligação com as linhas: Northern e Central. Por favor considere o vão entre o trem e a plataforma", dizia a gravação. Rorks, calma e lentamente, levantou-se. Saiu do trem e dirigiu-se para a plataforma da Central.
- Eu...eu não sabia que ia... - a menina quase chora.
- Bom, tá na hora de começar a ficar esperta e identificar os malandros, guria.- Sam falava com ela de costas.
- Eu talvez não usaria as mesmas palavras que meu colega "tira mau", mas...de fato, você precisa se cuidar melhor.
Rorks entrou no trem. Os olhos (vesgos) atentos, procurou pacientemente cada passageiro no vagão. Descobre que escolheu corretamente. Acompanha o vagão por mais duas estações, até que desce. Acelera um pouco o passo, vira e entra num beco. Aguarda sem um pingo de ansiedade. Abraça um transeunte por trás e, com o dedo indicador puxando seu nariz de baixo pra cima, avisa que acabou.
Algumas horas depois, os três se reúnem com os pais e a filha no escritório.
- Bom, aqui está o pagamento. Obrigado pelo serviço.
- Se querem meu conselho... - Gabe pondera um pouco antes de completar - ...talvez ela precise de acompanhamento psicológico.
- 'Cês devem tá acostumados com isso, né? - arrisca o cliente.
- O caralho! - Sam esbraveja, cuspindo pela janela. - Vida de detetive costuma se resumir a tirar foto de dona botando chifre no marido, fuxicar a vida dos filhos. A gente devia era cobrar um extra de uns mil porcento de mão-de-obra! E tem mais, eu acho que...
- Senhor, senhora, senhorita...que tal saírem enquanto eu cuido disso com meu colega? - Gabe tampava a boca de Sam com uma mão enquanto apontava à porta com a outra.
Enquanto os dois discutiam - onde primariamente se ouvia "bons modos" do lado de Gabe e "foda-se" e suas variantes vindo de Sam - Rorks pega o cheque do pagamento e põe no bolso. O sexto-sentido financeiro de Sam desperta:
- Ei, ei! Onde 'cê vai com tudo isso pro'cê, espertinho?
- Rrmm...pagar. Multa.
O Bom e o Mau se desenergizam por total enquanto perguntam, em unísono:
- ....o carro, de novo...?
terça-feira, 23 de setembro de 2008
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Prólogo - Um Embaixador Estrelar
- Larga essa faca, garoto. Não tá vendo o que ele é?
- Deixa comigo, chefe. Eu vou ensinar ele a não se meter no que não deve.
Na frente dos dois, encontrava-se uma criatura cujo potencial para fascinar seria igualado somente pelo pontencial para amedrontar.
- Trago uma mensagem de Shtay-lahRevinYnvoe para seu povo. - ouviu-se, mas o ser jamais mexeu os lábios.
- Xitei-o-quê?!
- Ele tá falando de SRY, idiota. O lar dos Embaixadores Estrelares!
- Então ele é um...? Fudeu! - o jovem de pele azulada mal terminou de concluir seu pensamento, pulou, faca em punho, na direção do Embaixador.
O que se viu depois...bom, o que se viu depois era simplesmente a maravilha causada por um ser fantástico tal qual somente alguém com uma pele de um roxo tão denso e cabelos tão alvos, somente alguém imerso numa capa que fluia como a água dos sonhos da gente no ar, somente alguém com aquele brilho translúcido surreal que ultrapassava tal capa... era simplesmente a maravilha causada por um Embaixador Estrelar. Afinal de contas, somente alguém com domínio pleno sobre a gravidade poderia fazer com que um atacante viesse a beijar o chão, ficando lá imóvel, com o som de alguns poucos ossos se quebrando.
- Como dizia, trago uma mensagem de SRY. Deixem. A Terra. Em paz. Não nos opusemos à sua colônia artifical, mas vemos um padrão indesejável nos seus planos. Estejam avisados, e estejam cientes de que estamos sabendo da situação. Adeus.
Uma reverência e o Embaixador fez uma viagem quase instantânea. O que se dava pra observar entre as paredes de aço era apenas um filete de luz se desfazendo em instantes.
- Ele...era mesmo um... - disse aquele que estava deitado, enquanto se levantava lentamente agora.
- Eu te avisei, babaca. Um desses novo é virtualmente invencível, um desses velho é instável demais para se atacar. Queria ver nossa casa sendo derretida por uma Nova, é isso?!
- Eu...putz...e...e agora? O que a gente faz?
- A gente obedece, ué. A gente passa o recado.
- Deixa comigo, chefe. Eu vou ensinar ele a não se meter no que não deve.
Na frente dos dois, encontrava-se uma criatura cujo potencial para fascinar seria igualado somente pelo pontencial para amedrontar.
- Trago uma mensagem de Shtay-lahRevinYnvoe para seu povo. - ouviu-se, mas o ser jamais mexeu os lábios.
- Xitei-o-quê?!
- Ele tá falando de SRY, idiota. O lar dos Embaixadores Estrelares!
- Então ele é um...? Fudeu! - o jovem de pele azulada mal terminou de concluir seu pensamento, pulou, faca em punho, na direção do Embaixador.
O que se viu depois...bom, o que se viu depois era simplesmente a maravilha causada por um ser fantástico tal qual somente alguém com uma pele de um roxo tão denso e cabelos tão alvos, somente alguém imerso numa capa que fluia como a água dos sonhos da gente no ar, somente alguém com aquele brilho translúcido surreal que ultrapassava tal capa... era simplesmente a maravilha causada por um Embaixador Estrelar. Afinal de contas, somente alguém com domínio pleno sobre a gravidade poderia fazer com que um atacante viesse a beijar o chão, ficando lá imóvel, com o som de alguns poucos ossos se quebrando.
- Como dizia, trago uma mensagem de SRY. Deixem. A Terra. Em paz. Não nos opusemos à sua colônia artifical, mas vemos um padrão indesejável nos seus planos. Estejam avisados, e estejam cientes de que estamos sabendo da situação. Adeus.
Uma reverência e o Embaixador fez uma viagem quase instantânea. O que se dava pra observar entre as paredes de aço era apenas um filete de luz se desfazendo em instantes.
- Ele...era mesmo um... - disse aquele que estava deitado, enquanto se levantava lentamente agora.
- Eu te avisei, babaca. Um desses novo é virtualmente invencível, um desses velho é instável demais para se atacar. Queria ver nossa casa sendo derretida por uma Nova, é isso?!
- Eu...putz...e...e agora? O que a gente faz?
- A gente obedece, ué. A gente passa o recado.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
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